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CAVAQUINHO DE CABO VERDE
Por Gláucia Nogueira
O cavaquinho está bem presente
na música cabo-verdiana, fazendo
parte habitualmente dos grupos
acústicos, nos quais tem sempre
a função de marcar o ritmo. Rara
é a sua utilização como
instrumento solista.
Sendo recentes os estudos sobre
a música em Cabo Verde, a sua
história no arquipélago não está
contada. No máximo, encontramos
um breve esboço sobre o seu
papel nas práticas musicais
locais na obra Os instrumentos
musicais em Cabo Verde, de
Margarida Brito (1998), que
aponta a presença do cavaquinho
nas ilhas já o início do século
XX.
Recuando às primeiras décadas
desse século, encontramos, com
efeito, algumas referências: O
nº 5, de 29 de Maio de 1913, do
jornal O Futuro de Cabo Verde,
que se editava então na capital
da colónia, traz um anúncio
publicitário da firma Augusto
Vieira, em Lisboa, divulgando o
seu “variado sortimento de
guitarras, bandolins, bandoletas,
bandoloncelos, bandurras, bajos,
cavaquinhos, violetas, violas,
violões-baixos, etc.”.
Outra referência ao cavaquinho
nesses inícios do século XX dá
conta das atividades musicais do
compositor B.Léza (Francisco
Xavier da Cruz, 1905-1958), que
entre 1926 e o início da década
seguinte residiu na ilha do
Fogo, tendo criado na cidade de
S. Filipe um clube onde
pontificava como músico e
animador cultural. O grupo que
girava à sua volta era composto
por Eduardo Barbosa (violão),
Quintino Sanches Tavares
(violino e cavaquinho), Raul
Barbosa (violino), segundo
relato do memorialista Miguel
Alves, natural dessa ilha.
Ainda relativamente a B.Léza, um
texto da sua autoria com data de
1931, inserido no seu livro Uma
partícula da lira caboverdeana
(1933), descreve uma noite de
serenata na cidade da Praia:
“Algum passante que acaso
vagueava por esses lados a essa
hora tardia da noite, contaria
na segunda fila: dois violinos,
quatro violões, um cavaquinho e
um bandolim”.
Dessa mesma época, vêm dos
Estados Unidos – onde uma
numerosa comunidade
cabo-verdiana se encontra
radicada desde o século XIX –
referências a grupos musicais de
cordas formados por
cabo-verdianos em que está
presente o cavaquinho.
Referem-se estas informações às
primeiras gravações de discos
realizadas por cabo-verdianos.
Abrew´s Portuguese Instrumental
Trio é um desses grupos. Aparece
na colectânea Portuguese string
music, que reúne gravações das
três primeiras décadas do século
XX, realizadas nos EUA.
Organizada por Richard K.
Spottswood, especialista em
discografia de música étnica
produzida nos EUA, a compilação
inclui também portugueses (com
fado e corridos) e brasileiros
(com choro). Abrew´s Portuguese
Instrumental Trio é composto por
violino, viola e cavaquinho.
A presença do cavaquinho em
grupos cabo-verdianos é atestada
ainda, na década de 1930, pela
participação de uma
representação do arquipélago na
Exposição Colonial realizada no
Porto em 1934. “Quasi todos são
artistas: as raparigas,
bailarinas exímias que devem
causar sensação com a sua
característica morna e ainda em
maxixes e sambas e dansas
europeias; os homens, hábeis
tocadores de cavaquinho, de
violão, violoncelo e violino”,
escreve o Diário de Lisboa, em
23 de Junho de 1934.
Aparentemente, o cavaquinho
chega a Cabo Verde tanto a
partir de Portugal (como o
anúncio no jornal sugere) como
do Brasil (cujos contactos com
as ilhas sempre foram intensos
devido à navegação no Altlântico).
Contudo, Margarida Brito cita no
seu livro o construtor de
instrumentos Mestre Baptista
[1](João Baptista Fonseca,
1924-1997), segundo o qual “o
cavaquinho usado em Cabo Verde
teve influências do cavaquinho
brasileiro”.
Na sua oficina na ilha de S.
Vicente, Mestre Baptista ensinou
todos os seus filhos a construir
instrumentos. Um deles é Bau,
músico que, ao conhecer o
cavaquinho solado do brasileiro
Valdir Azevedo, enveredou por
essa via, ao perceber os
recursos do instrumento para lá
da marcação do ritmo. Como
construtor, Bau acaba por dar o
seu nome a um modelo de
cavaquinho com determinadas
características que o tornam
peculiar.
Além da oficina de Bau e os seus
irmãos, funciona em S. Vicente a
oficina de Aniceto Gomes
(http://www.geocities.ws/aniceto_gomes/agomes.htm),
outro aprendiz de Mestre
Baptista. É escassa a classe dos
construtores de instrumentos em
Cabo Verde. Lela Preciosa (Manuel
Filipe Rodrigues, 1917-1994), da
mesma ilha, é outro nome
associado a este ofício, bem
como Eduardo Lopes (déc.
1920-déc. 1990) e Ivo Pires
(1942-2009), ambos da ilha Brava
e que desempenharam a sua
profissão nos EUA.
Referências bibliográficas:
BRITO, Margarida (1998). Os
instrumentos musicais em Cabo
Verde. Praia: IC/CCP.
CRUZ, Francisco Xavier da (1933)
Uma partícula da lira
caboverdeana. Praia: Tipografia
Minerva de Cabo Verde.
NOGUEIRA, Gláucia (2005). O
Tempo de B.Léza, documentos e
memórias. Praia: IBNL.
Atelier de violão Aniceto Gomes,
http://www.geocities.ws/aniceto_gomes/agomes
.htm. (Consulta em 31.12.2013)
Periódicos:
O Futuro de Cabo Verde |
Diário de Lisboa
Discografia:
Portuguese string music, Crawley,
Interstate Music Ltd., 1989, 1
CD.
http://www.geocities.ws/aniceto_gomes/agomes.htm.
(Consulta em 31.12.2013)
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